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O MONUMENTO DE MAFRA NA CULTURA POPULAR

A opção de D. João V de apenas utilizar mármore em vez de madeira, ou talha dourada, na Basílica de Mafra, deveu-se, decerto, à circunstância de o Magnânimo desejar, também nesse particular, emular as igrejas romanas, cujos altares eram, então, quase exclusivamente, edificados em pedraria.

Com efeito, tal programa é expressamente sublinhado na correspondência remetida para Roma em 1729 e reiterado na do ano seguinte. Do mesmo modo, as cores dos mármores utilizados em Mafra não seriam alheias à referida opção, correspondendo à necessidade de fazer coincidir a imagem da Basílica de Mafra com o texto do Apocalipse, o qual descreve a Jerusalém Celeste recamada de pedras preciosas.

A Nova Jerusalém baixa dos céus radiante de glória: “Resplandece como uma pedra muito preciosa, como jaspe cristalino”.

O Anjo que guiou o vidente de Patmos, mostrou-lhe uma cidade gloriosa, semelhante a um cubo:

“E a fábrica do seu muro era de jaspe e a cidade de ouro puro, semelhante a vidro puro. E os fundamentos do muro da cidade estavam adornados de toda a pedra preciosa. O primeiro fundamento era jaspe; o segundo, safira; o terceiro, calcedónia; o quarto, esmeralda; o quinto, sardónica; o sexto, sárdio; o sétimo, crisólito; o oitavo, berilo; o nono, topázio; o décimo, crisópraso; o undécimo, jacinto; o duodécimo, ametista. E as doze portas eram doze pérolas: cada uma das portas era uma pérola; e a praça da cidade de ouro puro, como vidro transparente”.

As gemas e o seu brilho feérico e incomparável evocavam duas realidades bíblicas: o peitoral do Sumo-sacerdote, descrito no Êxodo, e a cidade celestial omnipresente nas visões proféticas.

As pedras preciosas que constituem esta Jerusalém Celeste são minerais impregnados de luz, não a sensível, mas a do Senhor que edifica a ordem incorruptível.

Ora, conforme a tradição do Lugar Animado, que remonta à Antiguidade clássica (Homero, Virgílio, etc.) de onde transitou para o judaísmo e logo depois para o cristianismo nascente, a aplicação intencional de mármore na edificação de um templo, confere a este um sentido cosmológico e primordial, reportando-o imediatamente ao oceano mítico das origens, que rodeia o cosmos, ao mar congelado (observável na Hagia Sophia), potencialmente disponível para receber a Criação.

Donde, a doutrina admitida por teólogos de Bizâncio, que comparava uma igreja ao mar e o ambão a uma ilha.

Acresce que o Lugar Animado é obra do Espírito Santo, mediante cuja ação os materiais inertes se tornam vivos e aparentam fluidez, o que, novamente, remete para a escatologia do Fim exposta no Apocalipse: o Trono de Deus tornar-se-á universalmente visível ao pousar num mar brilhante como cristal.

Fica assim liminarmente desmistificada, não apenas a inequívoca parcialidade de Alexandre Herculano subjacente à sua conceção da História, como, notadamente, a sua extremada ignorância ao utilizar a expressão, que fez escola, “sensaboria de mármore” para caracterizar o Monumento de Mafra.

Doravante, baseada na premissa de Herculano e de seus pares, seria difundida, adquirindo foros de verosimilhança, uma lenda negra que passou a depreciar sistematicamente a Real Obra de Mafra. Tal influência negativa havia de contaminar o entendimento do Monumento pela Cultura Popular.