Doação de Mafra a Dom Nicolau, Bispo de Silves por D. Sancho I e D. Dulce [ANTT: CR, Santa Cruz de Coimbra, Docs. Regs., maço 2, n. 5]
São indubitáveis os vestígios arqueológicos a denotar que Mafra foi habitada desde o Paleolítico. As circunstâncias exatas da expugnação pelas forças de Afonso Henriques, permanecem incertas. Os cronistas são omissos quanto à data, apenas avançando uma justificação no que concerne à oportunidade do ato bélico, concretizado em 1146 ou, mais plausivelmente, no ano seguinte de 1147.
Já a mais remota fonte documental conhecida a reportar-se-lhe explicitamente (“villam quae dicitur Mafarã cum omnibus suis terminis novis et veteribus”), é o pergaminho que consigna a respetiva doação por D. Sancho I e pela rainha D. Dulce à diocese de Silves, na pessoa do Bispo Dom Nicolau e de seus sucessores, em 1189. A doação ficaria sem efeito, revertendo a povoação para a Coroa, após Silves ter sido reconquistada pelos muçulmanos, em 1191.
Foral de Mafra, concedido pela diocese de Silves, em 1189 [ANTT: gaveta 13, maço 1, n. 21, fl. 3v-6r]
Existia uma igreja em Mafra quando o burgo recebeu Foral concedido (1189) pelo Bispo de Silves. Seria impensável a não existência de um templo, especialmente em território dependente de uma diocese, além de que nesse diploma há referência a clérigos, naturalmente exercendo o seu munus pastoral na paróquia da vila: “[…] O clérigo haja foro de cavaleiro em toda coisa. E se com mulher for achado malamente, o mordomo não meta em ele mão, nem em nenhuma maneira não o filhe, mas a mulher tome, se quiser […]”. O diploma original perdeu-se, apenas se conhecendo uma cópia dele, já traduzido, inserta no Tombo da Terra da Estremadura (janeiro de 1396).
Doação de Mafara à Ordem de Évora, depois denominada de S. Bento de Avis, a cujo Mestre, Dom Gonçalo Viegas (1176-1193), por D. Sancho I, em 1 de maio de 1193 [ANTT: Ordem de Avis, n. 64]
Esta doação havia de ser objeto de reiteradas confirmações pontifícias, de Inocêncio III (1198-1216), e de uma régia, a saber, respetivamente: Bula Quotiens a nobis petitur (28 de abril de 1199); Bula Religiosam vitam (17 de maio de 1201); Bula Quotiens a nobis petitur (20 de maio de 1214); diploma de D. Afonso II confirmou a D. Fernando, Mestre da Ordem de Évora, a doação que seu pai fizera do castelo de Mafra a D. Gonçalo Viegas (agosto de 1218).
Mafra manter-se-ia na posse da mesma Ordem de Cavalaria até 5 de maio de 1237, data em que o mestre D. Fernando Rodrigues recebeu o castelo de Juromenha com seus termos novos e antigos, sob condição de devolver a D. Sancho II a vila de Mafra com todos os “termos e as coisas que na Vila e no termo estavam”.
Escambo de Portel por Mafra, em 1289 [ANTT: gaveta 11, maço IV, n. 20]
No dia 9 de janeiro de 1289, Mafra foi doada por D. Dinis a D. João Fernandes e sua mulher, D. Maria Anes de Aboim (filha do fidalgo e trovador D. João Peres de Aboim, c. 1213-c. 1285), em troca de Portel que lhes pertencia, com todos os seus direitos reais, incluindo o padroado da igreja da vila.
Nos termos do acordado, o soberano obrigava-se a coutar as vilas e lugares que doava de juro e herdade, para sempre livres e isentos de todo o tributo e serviço real. Na mesma data o monarca reformou alguns preceitos do Foral de 1189.
Os donatários não tiveram descendência, tendo-lhes sucedido seu sobrinho-neto, D. Diogo Afonso de Sousa.
Carta de Dom João I (Santarém, 8 de setembro de 1385) a ordenar a integração de Mafra no Termo de Lisboa [AHML: Livro I de D. João I, doc. 10]
Determina a integração de Colares, Ericeira, Mafra, Vila Verde, bem como todas as vilas, lugares e aldeias situadas entre os Termos de Lisboa, de Alenquer, de Torres Vedras e de Sintra no Termo de Lisboa, como recompensa pelo seu apoio no âmbito dos acontecimentos político-militares de 1384-1385.
O REITOR DA IGREJA DE MAFRA SUBSCREVE PETIÇÃO PARA A CRIAÇÃO DO ESTUDO GERAL (UNIVERSIDADE) DE LISBOA
A 12 de novembro de 1288, o Reitor da igreja de Mafra (ainda sem uma referência indubitável ao respetivo orago) subscreve, juntamente com o abade de Alcobaça, os priores de Santa Cruz de Coimbra e de S. Vicente de Fora e 23 outros reitores de igrejas portuguesas, uma petição dirigida ao Papa, para pagarem das rendas dos seus mosteiros e igrejas os salários dos Mestres e Doutores do Estudo Geral de Lisboa, que ia ser instituído. O teor desta petição parece indiciar terem sido os peticionários a requerer a D. Dinis tal fundação, porém, a crer em Rui de Pina, o próprio monarca, achando-se um dia com seus prelados e homens de conselho, em Montemor-o-Novo, ter-lhes-ia comunicado que tinha planeado (“e para isso propus dias há em minha vontade”) criar um Estudo Geral em que se lessem todas as ciências.
O diploma é elucidativo quanto ao desafogo económico do templo de Maffora.
DUARTE DE GALVÃO
Prólogo da Chronica delrey Dom Affonso Hemrriques
séc. XVI
pergaminho, iluminado (António Godinho?) ANTT: cod. 345
Nesta crónica se acha a primeira referência historiográfica à conquista de Mafra por D. Afonso Henriques. O autor afirma que se deu em 1147, antes da de Lisboa, narrando o feito nos seguintes termos:
“Chegando el-Rei à terra onde Lisboa está situada, pareceu-lhe melhor guerreá-la e tomar as fortalezas d'arredor dela, antes de cercar a cidade, por tal que, quando viesse o cerco, tivessem os seus menos trabalhos nas forragens, e se pudessem mais ligeiramente, sem outras guardas, estender pela terra; e assim tomou logo o castelo de Mafra e deu-o a D. Fernão Monteiro, o primeiro Mes¬tre de Aviz que houve em Portugal. E após isto, foi logo cercar Sintra e tomou-a [...]' (cap. XXXIV).
António Vitorino França Borges admite ter-se dado a conquista entre 18 e 28 de junho de 1147.