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O MITO DO SALOIO

O saloio é uma figura que não pode ser dissociada da história da vila de Mafra e do restante concelho, pelo papel de mediador económico e cultural que desempenhou em relação à capital, ligando a região mafrense ao Termo de Lisboa.

As suas origens, aliadas ao território por onde se estendeu e à sua caracterização enquanto grupo social, foram alvo de acesos debates entre intelectuais, de onde emergiram diversas teorias, algo fantasiosas e até romantizadas, mas que, nalguns casos, sobreviveram até aos nossos dias, designando-o como grupo étnico.

Nos séculos XIX-XX era crença generalizada nos meandros letrados que o saloio descendia dos mouros-forros que, por clemência de D. Afonso Henriques se teriam radicado nos arrabaldes de Lisboa após a reconquista cristã.

No auge deste debate, em 1917, David Lopes, especialista em arabismo, refutaria as teorias correntes. Segundo ele, "saloio" significava "habitante do campo" por oposição ao habitante da cidade. Assim sendo, esta denominação teria sido empregue muito antes da reconquista cristã de Lisboa aos mouros, para fazer a distinção entre as populações autóctones que viviam nos arredores da cidade e se dedicavam à agricultura - os moçárabes.

Sendo uma população rural radicada nos arrabaldes da capital, o seu território, do qual o concelho de Mafra fez parte, foi sendo redefinido à medida que o Termo de Lisboa se foi estendendo por pressão do crescimento urbano e aumento populacional. Este era um vasto território de cariz agrícola, onde este grupo social se dedicava ao trabalho da terra, produzindo produtos agrícolas e bens artesanais, bem como oferecendo serviços, abastecendo a cidade de bens essenciais à sobrevivência dos seus citadinos.

As figuras destas gentes rurais deram origem à criação de figuras típicas populares, embora de representação estereotipada, satirizadas e parodiadas nas artes e nas letras.

Em décadas recentes, o concelho de Mafra sofreu profundas transformações, deixando de ser um concelho de cariz primordialmente rural, abrindo o seu território com a instalação de uma vasta rede viária para acomodar outras atividades económicas e dar resposta ao crescimento populacional exponencial que se fez sentir nas suas principais vilas.

Na atual conjuntura, a figura do saloio - o reconhecível habitante do campo, tornou-se uma figura do passado.

Hoje, o saloio passou para o domínio simbólico, tornando-se um atributo de qualidade e de autenticidade dos seus produtos da terra, pela variedade da sua gastronomia local e um atrativo turístico para uma população citadina ávida do sentimento do regresso às origens e à procura bucólica do bem-estar campestre.